Fios e afins nos contos tradicionais Portugueses

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No atelier "Temos Tempo" em 9 de Outubro


Excertos de alguns contos

1. Cosmogonia: “No princípio do mundo”
Sobre a beleza do Sol e da Lua, conta-se que eles disputavam entre si qual era mais belo: o Sol, como a Lua era mais, com inveja, atirou-lhe à cara com lama ou areia, ou terra; e a Lua atirou à cara do Sol com agulhas ou alfinetes; por isso a Lua tem manchas e o Sol raios, que nos espetam os olhos quando os fitamos.
2. Objectos mágicos: “O príncipe das Palmas Verdes”
[a menina] foi pelo mundo [...] perguntando pelo príncipe das Palmas Verdes. Chegada a uma terra, perguntou à Lua […]; mas ela respondeu-lhe que não sabia […] e deu-lhe uma castanha que a quebrasse na maior aflição que tivesse. […] o Sol disse-lhe que não sabia […] e deu-lhe uma noz que a quebrasse na maior aflição que tivesse. Perguntou ao Vento […]. Ensinou-lhe o caminho e deu-lhe uma bolota que a quebrasse na maior aflição que tivesse. A mulher foi à terra do príncipe das Palmas Verdes e […] pediu uma esmola e perguntou a uma criada se o príncipe lá estava. […] Enquanto a criada foi buscar a esmola, quebrou a castanha: saiu-lhe uma roca de oiro e uma estriga de oiro; a criada chegou e viu aquela riqueza, foi aonde a ama e disse-lhe: «Ó senhora, sempre a pobre tem riqueza! Ela está a fiar oiro, tem fuso, maçaroca e roca tudo de oiro.» «Vai lá e diz-lhe se ela te quer vender isso.» A pobre respondeu: «Eu não lhe vendo isto que lho dou se me deixar ir ficar no quarto do príncipe das Palmas Verdes.
3. A mulher trabalhadora: “A aranha”
[…] a aranha saiu e foi trepando pela parede acima. Foi ter ao teto da casa e principiou a fazer uma teia. O rapaz voltou-se para ela e disse-lhe: «- Assim é que eu gosto de ver as mulheres trabalhadeiras.» A aranha não lhe respondeu nada. O rapaz foi procurar trabalho a uma aldeia próxima. […] Quando o rapaz veio de fora viu a casa varrida e um jantar com tudo o que era bom. Voltou-se para a aranha e disse-lhe: «- Boa escolha tive eu na minha mulher!» A aranha começou a fazer bordados e a deitá-los para baixo.
4. Estratégia para atrair pretendentes: “Os simplórios”
«Olha, vem aí um rapaz para te ver e tu põe uma rocada grande na roca e põe-te a fiar para ele se agradar de ti e se ele disser: “Oh, que rica fiandeira!”, tu dize: “Eu destas despejo sete ao dia.”».
5. Trajes da nobreza vs. Trajes do povo: “A carrapatinha”
Quando foi o dia do noivado, apareceu o palácio muito rico, com muitos criados e muitas aias, e a carrapatinha feita numa princesa muito linda, vestida de noiva. As carruagens estavam prontas, meteram-se dentro e foram para a terra da irmã, onde ia também uma carruagem de estado para o irmão e para a mulher. Chegados ao sítio apareceu o irmão com uma saloia, com os fatos muito curtos.
6.Trajes do Maravilhoso: “O Príncipe Urso Doce de Laranja”
Ele deitou a cabeça no colo dela e, quando ele estava dormindo, ela passou-lhe a mão pelas costas, a fazer-lhe festas, e viu uma abotoadura de botões e desabotoou-lhe quatro, e viu o corpo de um príncipe branco e bonito.
7. Disfarce feminino: “O bolo refolhado”
Quando o homem veio do trabalho, pediu a ceia, e como não achou o bolo refolhado, berrou, ralhou, deu muitas pancadas na mulher. […] A desgraçada da mulher não sabia como acabar aquele fadário, e foi ter com a vizinha a chorar. «- Deixe estar, vizinha, tudo se arranja! Venha cá ter comigo à tardinha, vestida com as calças e o jaquetão do seu homem.» A pobre mulher foi. Assim que chegou a casa da vizinha, também a achou vestida com as calças e casaco do marido dela; e partiram ambas com os seus varapaus para o sítio por onde o homem ruim havia de vir do trabalho. Puseram-se cada uma de um e outro lado do caminho. Quando o homem vinha a passar, diz uma: «- Bate-lhe, São Pedro!» «- Porquê, São Paulo?» «- Porque pede à mulher o bolo refolhado.»
8. Disfarce masculino: “A Albariquiotinha”
Era uma vez um rapaz que gostava lá de umas pequenas, e não sabia de que maneira havia de falar com elas. Depois então foi-se lá acometer para servir. Elas precisavo’, aceitaram-no. Mas ele ia vestido de mulher, com o nome de Albariquiotinha, e dormia c’üa filha da casa.
9. Metáforas da sexualidade: “Maria Sabida”
Ora o homem, tendo de sair a uma longa jornada, mandou-lhes fazer uns vestidos [às filhas], um para cada uma e disse-lhes que eles não eram para vestir, mas sim para os guardarem limpos sem nenhuma nódoa «como vos desejo ver a vós, e se alguma acontecer, logo eles me dirão».

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